O relatório “Vi0lência Contra os Povos Indígenas no Brasil — Dados de 2025”, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), expõe um cenário de extrema violência contra comunidades Guarani-Kaiowá em Mato Grosso do Sul. Um dos episódios mais graves ocorreu em setembro, na região da Terra Indígena Guyraroka, em Caarapó, onde o documento relata sequestro de indígenas, disparos de armas de fogo, destruição de pertences e até dois cães enterrados vivos como forma de intimidação.
Segundo o Cimi, indígenas que haviam retomado a Fazenda Ipuitã teriam sido levados à sede da propriedade durante um ataque. Quando outros integrantes da comunidade foram ao local para tentar resgatá-los, teriam sido recebidos a tiros por pistoleiros. O relatório, porém, não informa quantas pessoas teriam sido sequestradas nem identifica os supostos autores, deixando questões sobre a responsabilização dos envolvidos.
A violência teria começado antes e continuado depois. O Cimi afirma que, em setembro, uma ação da Tropa de Choque da Polícia Militar resultou no despejo da comunidade, com relatos de indígenas atingidos por balas de borracha e de agressões. Em outubro, novos confrontos teriam ocorrido durante protestos contra tratores e a pulverização de agrotóxicos nas proximidades das moradias indígenas.
Os números apresentados pelo relatório tornam o quadro ainda mais alarmante: 18 das 38 tentativas de assassinato de indígenas registradas pelo Cimi no Brasil em 2025 ocorreram em Mato Grosso do Sul. O Estado também registrou, segundo a entidade, 37 assassinatos de indígenas no ano, ficando atrás apenas de Roraima e Amazonas.
O caso de Guyraroka é apresentado pelo Cimi como símbolo de uma disputa territorial marcada por violência, tensão fundiária e denúncias de intoxicação por agrotóxicos. Ao mesmo tempo, as acusações descritas no relatório são baseadas em relatos de lideranças indígenas, do próprio Cimi e de entidades de direitos humanos, e não equivalem, por si só, a conclusões judiciais sobre autoria ou responsabilidade criminal.
O que emerge do documento é uma pergunta incômoda: até onde pode chegar um conflito por terra quando uma disputa territorial passa a envolver tiros, supostos sequestros, violência policial e animais enterrados vivos?
Fonte: Correio do Estado
